terça-feira, 8 de maio de 2018

Juvenal e a raposinha ferida

Na juventude Juvenal* teve lá suas malvadezas, sobretudo no trato com animais. Hoje, ele se comporta de maneira diferente daquela que o taxou de o mais peralta do bairro. Dia desses, em uma de suas caminhadas, Juvenal deparou-se com uma raposinha que acabava de cair num buraco às margens de uma estrada de pouco movimento. Tentou de todas as formas resgatá-la, mas dada à profundidade da cova, e a falta de equipamentos adequados, não teve êxito.
Decidiu então chamar o corpo de bombeiros que, por sua vez avisou o serviço de resgate. Para o local do acidente se deslocaram três viaturas e oito homens, afinal a vítima era uma raposinha que estava ameaçada de extinção. O animalzinho foi conduzido a um pronto-atendimento, depois levado a um hospital veterinário especializado em fraturas, escoriações e outros ferimentos e após quinze dias internado, foi devolvido ao seu habitat natural. Claro que os traslados, estadia durante o tratamento, atendimento profissional e medicamentos foram bancados pelo Estado, afinal de contas aquela vítima era uma espécie ameaçada de extinção. Juvenal que era casado e tinha quatro filhos menores, vivia de biscates, recebendo salários que mal davam para as despesas de supermercado. Os três garotos mais velhos gozavam de saúde razoável, porém o caçula tinha uma série de problemas. Como não tinha um bom plano de saúde, Juvenal aguardava havia meses, uma oportunidade de internar o garoto e submetê-lo a alguns exames, tudo pelo SUS, evidentemente. Enquanto a raposinha recebia tratamento adequado e era devolvida à floresta, o filho de Juvenal aguardava por exames que talvez nem tenham sido feitos ainda.
Este artigo que brota da imaginação do autor não tem nenhuma relação com algum evento real, mas serve de reflexão para alguns episódios semelhantes que lamentavelmente se desenrolam por este país rico e de dimensões continentais.
*Nome fictício
Benedicto Blanco é jornalista

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