quarta-feira, 9 de maio de 2018

Lembranças de boleiros do passado

Final de tarde de um longínquo dia de 1958, um garoto amante de futebol vai ao maior campo da cidade apreciar treinamentos dos atletas. No gol de entrada do estádio um goleiro com uniforme cinza olha firme para a bola que está na marca da cal. Na meia lua da grande área, mãos na cintura, batendo com o bico da chuteira no chão está o cobrador. Imparato, grande jogador do CAL está prestes a enfiar o pé na bola e balançar a rede da cidadela defendida por Romaninho (Romano Marcolino).
Afasta-se alguns passos e ‘pimba’, mas a bola passa raspando a trave e vai para fora. Caído ao lado oposto, Romaninho senta-se no chão e sorrindo zomba do amigo. Imparato dispara dizendo: “.. se eu fosse o Pelé, você não falava que eu sou grosso...”. Romaninho goza de boa saúde e está entre nós, mas Imparato já partiu e deixou saudades àqueles que gostam de futebol. O garoto que está atrás do gol com o rosto colado na cerquinha que separa o campo do público pergunta a um amigo: “.. Quem é Pelé..?”. Como todos sabem Pelé se tornou rei do futebol depois de conquistar inúmeros títulos mundiais pelo Santos F. C. e pela seleção brasileira, mas para o garoto, ele era um ilustre desconhecido. Na parte central do gramado há um grupo de jogadores em forma de círculo e tem um rapaz em pé que parece fazer discurso. Por causa da distancia, não é possível entender o que ele diz. O garoto não reconhece a todos, mas alguém lhe revela que ali estão grandes nomes do glorioso futebol lençoense. Entre eles, alguns remanescentes do timaço dos anos 40 e 50 do século passado, que contava com Limão, Radamés, Didi (Folha Seca), Kim, Abilio, Bepin, Imparato, Belfare, Pedrinho Carcereiro, Rui, Davi, Ilmo, Tite, Hélio, Marcos, Russo, Bertoluci, entre outros. Mais tarde, o Glorioso, ou Demolidor da Sorocabana (apelidos do Clube Atlético lençoense – CAL), teve em seu plantel craques como Walter Pacífico, os irmãos goleiros Romano e Roberto Marcolino, Miltinho Moreira, Toninho Biral, Silvinho Capoani, Nenê Peito de Pomba ou Nenê Boteco que na década de 70 defendeu o São Paulo da capital, Edilinho Carani, Elias, Dirceu, Vicentinho, Carlos Stanguini, Silvinho Preto, Rasi Gebara, Disgrama, Rose e muitos outros abnegados que por paixão à arte vestiram o manto preto e branco do CAL. Hoje, só há uma gostosa lembrança do romântico futebol amador. O CAL que tantas alegrias deu ao torcedor caiu nas mãos de pessoas que tinham apenas interesses particulares e hoje o clube não existe mais. De um modo geral, no decorrer dos anos o futebol foi se transformando e agora é apenas um grande negócio até para pequenas equipes. Se um jovem atleta se destaca nos treinos, os dirigentes, treinadores e até a própria família já imaginam colocá-lo num grande time e posteriormente transferi-lo para alguma equipe da Europa. Tudo gira em torno do dinheiro e por essa razão as pequenas cidades do interior não têm mais como manter times de futebol. As escolinhas da periferia dos grandes centros só permanecem vivas se tiverem como provedor algum empresário do ramo ou ex-jogador de futebol. 
Só para lembrar, o garoto que presenciava os treinos da equipe não era outro senão o autor deste texto.

Um comentário:

  1. Nostálgico e atualmente muito realístico texto. Mas, não só as pequenas cidades sofrem com o desaparecimento do futebol. Times de grande tradição do interior paulista, hoje amargam um terrível ostracismo nos limites das divisões profissionais. Em São José do Rio Preto, o tradicional América, patina na 4ª Divisão, a última do profissionalismo. Junto a ele, Francana, Comercial de Ribeirão Preto, Paulista de Jundiaí, Bandeirante de Birigui, São José de São José dos Campos, XV de Jaú, equipes que outrora fizeram parte da elite do futebol paulista. Na 3ª Divisão, mais um considerável clubes tradicionais, lutando mais para permanecerem vivos do que para retornarem ao que eram.

    ResponderExcluir