quinta-feira, 10 de maio de 2018

Previsões políticas


Meu avô tinha um amigo que além de benzedeiro, tocador de viola e amolador de tesoura era craque em fazer previsões políticas. A casa dele sempre recebia aspirantes a cargos eletivos. A fama do cara era tanta que até um agente de Jânio Quadros teria vindo em busca de orientações. Um tronco de aroeira preta, sob um frondoso angico do campo era seu escritório. Era ali que ele atendia sua clientela. Corria os anos da década de 60, e as eleições municipais se aproximavam quando um rapaz de meia idade se aproximou de Tôta (seu apelido) e pediu-lhe algumas orientações.

- "Sei que o senhor é benzedeiro. Então, quanto quer para fazer uma reza para que eu seja eleito?" O velho coçou os poucos fios de barba branca que tinha na ponta do queixo e disparou:
 - "Quero que o senhor arrume emprego pra fia do meu compadre que mora lá no outro lado dá água. Ela já sabe datilografia e escreve bem". Satisfeito com o rumo que a prosa tomava, o candidato foi além da exigência de Tôta. - "Arranjo trabalho pra moça, pro namorado dela, pra tia dela, pra mãe, pra avó, pros amantes dela... pra todo mundo, mas pra isso, preciso me eleger". Apurados os votos, o candidato perdeu a eleição para o seu concorrente por uma diferença de apenas um voto. Revoltado, correu à casa de Tôta e o encontrou sentado no pilão pitando no cachimbo, cujo o cano era feito de galho de aça-peixe. - "Pô, velho safado.. Você me deu esperanças, eu já tinha até feito os meus contatos pra arranjar o emprego da moça. O meu concorrente que não fez nada, não prometeu emprego pra ninguém venceu a eleição por um voto... espero que você tenha uma explicação plausível pra me dar". Depois de uma baforada no cachimbo, o velho Tôta mandou essa: - "Que nada, meu fio...  política é assim mêmo.... quando o candidato é ruim, não tem reza braba que de jeito.. Naquele mêmo dia que você teve aqui, o seu concorrente chegou logo depois que você saiu. Ele me ofereceu umas vantagens que você não quis oferecer..". O que além do emprego da moça ele te ofereceu? perguntou o rapaz. "Ele disse que mesmo que não ganhasse a eleição, ele me mandaria uma lima nova para eu afiar tesoura.." Moral da história: a prática de se comprar votos vem dos tempos do meu avô e de seu amigo benzedeiro. Tanto antes como agora, o último favor acaba ganhando o voto do eleitor.

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